Vida que flui do Sínodo dos Bispos para a região Pan-Amazônica
6 de dezembro de 2019 Notícias
Artigo_Irmã Nonata

Irmã Maria Nonata Bezerra

O tempo Kairós de participação no Sínodo da Amazônia foi um impulso de esperança, ânimo e reafirmação do compromisso com a causa da Região Pan-Amazônica. No entanto, desde o início, ficou muito claro que as reflexões e as realidades trazidas para a Assembleia Sinodal ultrapassavam as fronteiras geográficas e traziam aspectos pertinentes à Igreja universal.

Tive a graça de escutar os muitos apelos trazidos ao Sínodo por representantes das comunidades de indígenas, de camponeses, de quilombolas, de caboclos, de assentados, de ribeirinhos e de habitantes dos centros urbanos. Constatei que eram pessoas comprometidas com a vida e empenhadas em prestar serviço às comunidades, em preservar a floresta e em escutar o clamor do povo.

O Papa Francisco foi muito feliz ao convidar, além dos padres sinodais, representantes da Igreja na Europa, na África e na Ásia, e auditores, peritos e delegados fraternos de outras Igrejas, assim como convidados especiais.

A presença dos indígenas, muitos deles vestidos a caráter, foi muito significativa. Como disse um indígena: “Papa Francisco, graças a você, os emplumados estão em suas casas e nos sentimos acolhidos em seu coração”.

E assim, uma diversidade de culturas uniu-se com o mesmo objetivo: salvar a Amazônia e, assim, salvar o Planeta. Isso reforça a expressão de um novo perfil de Sínodo, como definido pela Constituição Apostólica Episcopalis Communio. Afinal, como o Papa enfatiza, cada vez menos de bispos, torna-se “cada vez mais um instrumento privilegiado de escuta do Povo de Deus”, integrado, também, por “pessoas que não detêm o múnus episcopal”.

Destaco a participação das mulheres, como uma presença significativa e questionadora das estruturas atuais da sociedade e da Igreja hierárquica. “É a primeira vez que um Sínodo da Igreja tem tantas mulheres participando de forma ativa e efetiva. Nossa participação ainda é bastante limitada, mas temos consciência de que estamos abrindo caminhos para as gerações futuras. A presença das mulheres no Sínodo indica que mudanças importantes estão em curso e estamos participando ativamente desses processos. Conquistaram o direito à fala e o usaram com muita poesia, ternura, racionalidade, objetividade e conteúdo propositivo”, afirma a perita no Sínodo da Amazônia, Márcia Oliveira. O bispo emérito do Xingu, Dom Erwin Kräutler, concorda: “A contribuição das mulheres foi o ponto alto deste Sínodo. São elas que mais participam das ações sociais, que são resistência e não mudam de posição quando são contrárias a certos projetos, que pensam no futuro e nas próximas gerações”.

A atitude do “bom pastor que ama e que dá a vida por suas ovelhas” foi evidente no testemunho do Papa Francisco, em sua presença durante toda a Assembleia Sinodal – durante a qual ouviu, acolheu, incentivou e fez intervenções encorajadoras e muito sábias. Ele expressa com a vida o que diz em palavras: “que o pastor deve ter o cheiro das ovelhas”. Por isso, seu espírito alegre e bem-humorado é constante inspiração e incentivo para nós.

Em um determinado momento, o Papa Francisco falou sobre a necessidade de soluções “englobantes e totais”, abrangentes, não de simples “remendos”. Aspecto que nos desafia a deixarmos nossas zonas de conforto e para abraçarmos o cuidado com a vida, com a “Casa Comum” … enfim, com o cuidado da criação.

E agora? Como será a continuidade?

O Sínodo é um processo. A caminhada continua!

No âmbito da Sinodalidade, a Igreja vem avançando e inovando. Desde a criação do Sínodo, em 1965, esta é a primeira vez em que o Conselho Pós-Sinodal não está constituído apenas por Bispos. Afinal, a nomeação do Papa inclui duas leigas e um leigo: Irmã Laura Vicunã Pereira Manso – da Congregação das Irmãs Catequistas Franciscanas (Brasil), Patricia Gualinga – líder indígena da comunidade Kichwa di Sarayaku (Equador) – e Delio Siticonatzi Camaiteri, membro do povo Ashaninca (Peru).

A presença e a contribuição de indígenas, de mulheres, da vida religiosa e do laicato é o “transbordamento”, ao qual o pontífice se refere, começando a tornar-se realidade na vida e na história da nossa Igreja.

A partir da experiência sinodal, sinto o apelo, como pessoa e como Congregação, para avançar “para águas mais profundas”, tanto na continuidade da vivência quanto no assumir a responsabilidade e o cuidado com os bens da criação.

O documento final do Sínodo da Amazônia diz: “O diálogo ecumênico e inter-religioso deve ser encarado como um caminho irrevogável para a evangelização na Amazônia”, suscitando o questionamento sobre como podemos crescer nesse diálogo, seja como Congregação ou como Igreja universal?

O Sínodo da Amazônia tem implicações para todas as pessoas e países, mas como pode ajudar-nos a esclarecer os problemas de nossas próprias realidades?

Como a Igreja pode ajudar a cuidar da Casa Comum e do bem-estar diante de projetos para o “desenvolvimento” da Amazônia e de outros lugares que colocam a vida em risco, como a exploração madeireira, a construção de barragens hidrelétricas, a mineração e o agronegócio?

Há muita vida acontecendo depois do Sínodo, muitos seminários, oficinas, debates e outros eventos de compartilhamento das suas reflexões e de iluminação para ações concretas, principalmente nos nove países da Região Pan- Amazônica.

Sigo na esperança, na luta e acreditando que é possível fazer o bem, amar a Deus na pessoa do próximo e cuidar da mãe natureza e de suas belezas.

Como parte do meu compromisso pessoal, coerente com a graça recebida de poder participar da Assembleia Sinodal, estou partilhando com diferentes grupos a experiência e procurando construir, junto a eles, metas que sejam possíveis de serem atingidas. Afinal, foi é iluminadora para a prática nos caminhos da Justiça, da Paz e da Integridade da Criação (JPIC).

Como dizia Dom Hélder Câmara: “É graça divina começar bem. Graça maior é persistir na caminhada certa. Mas a graça das graças é não desistir nunca”.

Aproveito a oportunidade para agradecer, mais uma vez, a Congregação das Irmãs de Notre Dame, a União Internacional das Superioras Maiores e a todas as pessoas que estiveram comigo durante o Sínodo. Continuemos unidos na luta! “Não existe caminho… o caminho se faz no dia a dia”.

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